26 de dezembro de 2010

Ao som de Beatles.

Eram quase duas da manhã e eu estava na frente daquele velho lugar frequentado por mim e por, quase, toda galera da minha geração. 
Todos ali pareciam ter a mesma cara, com os mesmos gostos e enfim, já deu pra entender essa parte.
Éramos julgados como os rebeldes sem causa ou até mesmo 'os largados' sem futuro. Mas não, haviam ali, naquele lugar suspeito, tratado como boate, casa noturna ou bordel, pessoas de bem, como eu, por exemplo.
Aquele era apenas o nosso ponto de encontro. Uma vez a cada dois meses no mínimo, acontecia algum evento interessante que salvaria a rotina dos 'rolês' daquela mesma galera julgada como sem cérebro e supostamente, sem futuro. 
Estava num dia desses. Em um 'rolê' desses. Numa madrugada infeliz após ingerir quase um litro de vinho pra esquecer de um ou mais problemas que ganhei de presente na minha pequena grande estrada sentimental. Dizem por aí que vinho faz bem ao coração e ao meu não poderia ser diferente.
Estou sozinha esperando o tempo passar do lado de fora deste lugar. Existem pessoas lá dentro curtindo um cover de Beatles e gritando a velha frase: 'Toca Raul!', que nem sempre é correspondida pelo vocalista que geralmente é um ignorante.
Meus pensamentos se transportam para um patamar bem distante daquela realidade. Me questionava dos sonhos e pesadelos que eram acumulados através de pessoas conhecidas ou... semi-conhecidas, os figurantes das cenas. 
A desilusão do meu coração se encontrava ali, traçada em meu olhar ou... escrita na minha testa mesmo.
Ao longe, com o mesmo olhar vago, consigo enxergar alguém se aproximando. Sabe-se lá o que seria aquela silhueta elegante, alta e... encantadora que estava por vir. 
Esperei. Eu e meus pensamentos. 
Virei o rosto de lado e de repente, sinto que alguém, que provavelmente eu já esperava, sentou-se ao meu lado. Como se já conhecesse meu drama pessoal de estar no auge daquela madrugada sentada sozinha em frente a um local já descrito como impróprio para pessoas decentes. Um doce olhar despertou meu sorriso e começou a dizer simplesmente: 
- Pobre, doce e linda menina. Ninguém deve ficar sozinho numa noite dessas. Devo imaginar o que se passa dentro dessa sua mente e devo te dizer que te entendo. Numa noite dessas, eu não poderia te deixar aqui.
Confesso, fiquei mais confusa do que já estava antes e minha vontade era apenas dizer um palavrão e sair andando. Um desconhecido não poderia saber da minha vida dessa forma. 
Ao fundo, consigo ouvir a banda encerrando a música 'A hard day's night' e iniciando com grande classe 'I want to hold your hand'. No silêncio que pairou no ar entre a minha pessoa e o ser incrivelmente pensante ao meu lado, ele prossegue: 
- É disso que eu estou falando.
- Disso? - respondo com um ponto de interrogação traçado em meu sorriso.
- Disso, dama da noite. É disso que estou falando.
- Não.
- Os Beatles.
- O que têm os Beatles?
- Eles sacaram. 
- Sacaram o quê?
- TU-DO.
- Como assim?
O admirável-misterioso-charmoso-pensante rapaz pega minha mão e a entrelaça com seus dedos. Continuando a dizer: 
- É disso que os Beatles entendem. 
- Acho que o vinho ingerido nessa noite não fez bem ao meu cérebro-raciocínio - respondi por responder.
- Nas outras bandas, o assunto é sempre o mesmo. Sexo, dor ou uma fantasia qualquer. Mas os Beatles... eles sabiam o que estavam fazendo. Sabe por que eles ficaram tão importantes?
- Por quê?
- I wanna hold your hand. O primeiro single. É brilhante, percebe? Talvez a melhor música já composta no mundo todo. Porque afinal, eles sacaram! É o que todo mundo quer. Não sexo quente o dia todo, sete dias na semana. Nem um casamento que dure cem anos. Nem um carro do ano, uma aventura sexual ou uma simples casa de um milhão de dólares. Não. Eles querem apenas segurar a sua mão. Eles têm um sentimento, como nós temos, que é apenas segurar a sua mão. E isso é impossível esconder. Cada canção de amor de sucesso dos últimos cinquenta anos pode remeter a I wanna hold your hand. E cada história de amor de sucesso tem esses momentos insuportáveis e intoleráveis de mãos dadas. Acredite em mim. Eu pensei muito nisso e tenho certeza que vou te fazer pensar também.
- I WANNA HOLD YOUR HAND - repeti sorrindo, consentindo o dito. 
Levantamos dali, com as mãos atadas, e depois disso... a noite terminou muito bem. Somente pelo fato de ter segurado sua mão. Alguém em que depois de cinco minutos, ganhou minha confiança depois de um olhar e uma interpretação sobre meu coração inteiramente correta. Ao som de Beatles, fomos para casa juntos. Sendo este, meu par por me entender tão bem apenas pelo ato de segurar minha mão.

Nathalia
repleta de nostalgia, fixação e pensando na cor dos olhos do belo rapaz.

14 comentários:

  1. Belo texto combinando romantismo e Beatles.

    Perfeito.

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  2. Olá! Parabéns pelo blog. Ele é muito bacana, bem como as postagens ; )

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  3. Gostei da tua forma de escrever, a narrativa em primeira pessoa caiu muito bem.

    Eu acho que não viajei tanto na história, voce prende o leitor com sua forma de escrever mas foi uma história clássica entende? E textos longos não é o que a MASSA espera encontrar.
    Enfim, eu amo ler e amei o seu romantismo.
    Uma hora no texto lembrei o jeito que o autor de "A ultima musica", mas ele escreveria assim:

    "O admirável(barra) misterioso (barra) charmoso (barra) pensante rapaz"

    Se um dia ler esse livro vai entender melhor!

    Crianças leitoras: Por favor, nao saiam as duas da manhã e deixe um estranho segurar sua mão, rs.

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  4. O blog está de parabéns! Gostei da sua forma de escrever também... Parabéns!

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  6. naty... i wanna hold your hand bjs

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  7. menina você escreve maravilhosamente bem. E os Beatles são fantásticos sim.

    "eles sabiam o que estavam fazendo."

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  8. Nossa, muito bom mesmo! Beatles e romantismo combinam perfeitamente!

    Vou te seguir, Beijocas, Boas festas! :D

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  9. A "Toca Raul" é clássica. Sou músico e sei como é essa situação....eheh
    Olha, voce conseguiu aliar em seu texto, simplicidade, romance e música de qualidade (Beatles).
    Grande referência para qualquer pessoa que gosta de boa música.
    Sucesso pra você sempre.
    Bom domingo.

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  10. Respirando.
    Pronto, agora acho que já posso elaborar algum comentário.
    Esse texto, em especial, me proporcionou um encanto, uma feição nova, daquele antigo e amargo fim de noite de pessoas rebeldes, os cérebros vazios do futuro. Algo me fez pensar que tudo pode mudar. Estamos esperando a todo dia uma pessoa dessas sentar-se ao nosso lado e nos fazer entender tudo de uma maneira mais sutil.

    Parabéns!

    http://ideologiaparaviver.blogspot.com

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  11. Me encantei com esse texto, Nathalia. Você soube descrever lindamente toda essa história, que por sinal foi verdadeira. E não há como não se deixar conquistar com uma interpretação assim. Lindo lindo!

    ah, se tivesse opção 'curtir' no blog, eu curtiria teu comentário. "desculpa a ausência (ou falta de sentimentos) da minha parte" - genial!
    ;*

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  12. Excelente. Romântico e empolgante.
    Posta mais minha escritora preferida. *-*

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  13. Caraca, simplesmente liiindo..
    Flor, parabéns, parabéns e parabéns.. você escreve maravilhosamente bem!
    Continue assim e faça um livro! xD
    Bjo!

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Obrigada pela opinião!